13 novembro 2007

O passado no presente...


"... está
enigmática
necessidade
de sensações
foi desde
sempre
satisfeita
pela
moda..."
Honoré de Balzac

06 novembro 2007

Diálogo da moda e a morte

Coleção
Inverno 2005.
John Galliano
para Dior.
Inspiração
Marquês de Sade.











Mais imagens:
http://picasaweb.google.com.br/lfsantiago/DiLogoDaModaEAMorte

Diálogo da moda e a morte

"MODA: Senhora Morte! Senhora Morte!

MORTE: Espere até a hora em que virei sem que me chames.

MODA: Senhora morte!

MORTE: Vai pro diabo! Virei só quando não quiseres.

MODA: Como se eu não fosse imortal!

MORTE: Imortal? “Passado é já mais do que o milésimo ano”, depois que se acabaram os tempos dos imortais.

MODA: Também a senhora “petrarqueia” como se fosse um poeta italiano do século XVI ou do XVII?

MORTE: Os versos de Petrarca me são queridos, porque neles encontro o meu Triunfo e porque falam de mim quase em toda parte. Mas, enfim, sai daqui.

MODA: Vamos, pelo amor que tens aos sete vícios capitais, fica um pouco e olha para mim.

MORTE: Estou olhando.

MODA: Não me conheces?

MORTE: Deveria saber que não tenho boa vista e que não posso usar óculos, porque os ingleses não fazem um que me sirva, e ainda que o fizessem não tenho onde apoiá-los.

MODA: Sou a Moda, tua irmã.

MORTE: Minha irmã?

MODA: Sim. Não te lembras que nós duas nascemos da Caducidade?

MORTE: Que tenho eu de me lembrar, se sou inimiga da memória?

MODA: Mas eu me lembro muito bem e sei que ambas vivemos continuamente a desfazer e mudar as coisas aqui embaixo, apesar de ires, para isso, por um caminho e eu, por outro.

MORTE: Se por acaso não estás falando contigo mesma ou com alguém que esteja na tua garganta, eleva mais a voz e articula melhor as palavras; porque se ficares murmurando entre os dentes com essa vozinha de aranha eu te compreenderei só amanhã, porque o ouvido, como sabes, não me serve melhor do que a vista.

MODA: Se bem que seja contrário ao hábito, e na França não se costuma falar para ser ouvido, mesmo porque somos irmãs e entre nós não precisamos de cerimônia, falarei contigo como quiseres. Digo que a nossa natureza e hábitos comuns são de renovar continuamente o mundo, mas desde o princípio te concentras nas pessoas e no sangue; e eu me satisfaço, no máximo, com as barbas, com os cabelos, com as roupas, com os utensílios domésticos, com as mansões e coisas que tais. É bem verdade que nunca deixei e ainda faço jogos que se comparam aos teus, como, por exemplo, furar as orelhas, os lábios e rasgar os narizes com insignificâncias que penduro neles; queimar as carnes dos homens com figuras incandescentes, que eu mando marcar para efeito estético; deformar a cabeça dos meninos com faixas e outras engenhocas, induzindo, como hábito, a que todos os homens tragam uma figura na cabeça, como na América e na Ásia; estropiar as pessoas com sapatos apertados, sufocá-los e fazer que os olhos saltem com o aperto dos corpetes e um sem-número de coisas desse tipo. Aliás, geralmente falando, persuado e constranjo os homens elegantes a suportarem todos os dias mil dificuldades e incômodos, muitas vezes dores e sofrimentos, e, algumas, a morrer gloriosamente pelo amor que me têm. Nem te digo nada das dores de cabeça, dos resfriados, dos defluxos de toda sorte, das febres diárias, terçãs, quartãs, que os homens ganham por obedecer-me, consentindo em tremer de frio ou sufocar de calor, conforme eu queira, em protegerem as costas com lãs, o peito com tecidos diversos e fazerem tudo a meu modo, ainda que seja em detrimento deles.

MORTE: Concluindo, creio que sejas minha irmã e se quiseres defenderei essa idéia como mais certa do que a morte, sem precisar da certidão de fé do pároco. Mas estando assim parada eu desfaleço, e se te animares em correr ao meu lado, trata de não te acabares, porque eu agüento bastante e assim podes contar as tuas necessidades; senão, em consideração ao nosso parentesco, prometo que, quando morrer, te deixo tudo o que é meu e te digo adeus.

MODA: Se tivéssemos que participar juntas no jogo do pálio não sei qual das duas venceria a prova, porque, se correres, eu vou mais depressa do que a galope; e se ficares num lugar parada e desmaiares, me desfaço. Assim, recomecemos a correr e juntas falaremos sobre nossos casos.

MORTE: Vamos com calma. Pois, uma vez que tu nascente do corpo de minha mãe seria conveniente que me servisses de algum modo para realizar os meus negócios.

MODA: Eu já fiz muito mais no passado do que pensas. Em primeiro lugar, sou eu quem anula e transforma continuamente todos os hábitos; jamais deixei que se negligenciasse a prática de morrer, vê que ela dura universalmente até hoje desde o princípio do mundo.

MORTE: Grande milagre que não tenhas feito o que não podias!

MODA: Como não podia? Demonstras não conhecer a força da Moda.

MORTE: Tudo bem: disso teremos tempo para discorrer, quando vier a moda perene. Mas enquanto isso gostaria que tu, como boa irmã, me ajudasses a obter o contrário mais facilmente e mais depressa do que fiz até agora.

MODA: Já te falei de algumas obras minhas que te são de muito proveito. Mas elas são risíveis perto das que vou te contar. Um pouco por vez, e mais nestes últimos tempos, para favorecer mandei desatualizar e deixar no esquecimento os trabalhos e os exercícios que convêm ao bem-estar corporal, e, introduzindo-os ou valorizando-os, incontáveis pessoas sacrificam o corpo e encurtam a vida. Além disso implantei no mundo tais ordem e tais costumes que a própria vida em relação ao corpo, como à alma, está mais morta do que viva: tanto que este, pode dizer-se em verdade, é o século da morte. E antigamente, tu não tinhas outras propriedades a não ser cavernas onde semear os ossos e pó no escuro, que são sementes que não brotam; agora tens terrenos ao sol e gente que se move e anda com os próprios pés; pode-se dizer que são coisas da tua livre razão e embora não tenhas colhido tens de tolerar que elas nasçam. E mais, antes eras odiada e injuriada; hoje, por obra minha, as coisas são reduzidas a tais termos que qualquer um que tenha cérebro te aprecia e te louva, sobrepondo-te à vida e te quer tão bem que sempre te chama e volta os olhos a ti como à sua maior esperança. Finalmente, por ver que muitos se vangloriavam em tornar-se imortais, isto é, não morrendo inteiramente, uma boa parte deles não chegaria às tuas mãos, embora eu soubesse que isso não passasse de conversa e que esses e outros vivessem na memória dos homens; eles viviam, por assim dizer, de brincadeira e não gozavam da fama mais do que se sofressem com a umidade da sepultura; como quer que seja, compreendendo que o negócio dos imortais te irritava porque parecia abater a tua honra e reputação, acabei com a moda de procurar imortalidade, e mesmo de concedê-la no caso de alguém merecê-la. Assim, no presente, podes ficar certa disso, quem quer que morra não deixará uma migalha viva e lhe convirá rapidamente levar tudo para baixo da terra como um peixinho abocanhado com cabeça e espinhas. Acho fiz essas coisas, que não são poucas nem pequenas, até agora por amor a ti, querendo aumentar o teu poder na terra, como tem acontecido. E para alcançar esse objetivo estou disposta a fazer outro tanto, e mais, a cada dia; foi com essa intenção que andei te procurando; a propósito, parece-me que, daqui por diante, não devemos sair uma de perto da outra, porque, estando sempre em companhia, poderemos consultar-nos com freqüência, conforme os casos, e tomar o melhor partido, como aperfeiçoar a execução deles.

MORTE: É verdade, e assim quero que se faça.”

LEOPARDI,Giacomo. Diálogo da moda e a morte. Poesia e Prosa; organização e notas, Marco Lucchesi; [traduções, Afonso Félix de Sousa... et al.] Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.